sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Primeiro dia do ano de 2010. Um silêncio quase absoluto se mistura apenas com os ruídos hipnóticos dos aparelhos de ar condicionado que emitem seus mantras da madrugada. Soam dessa forma pra mim. Foi dada a largada para mais trezentos e sessenta e cinco dias de luta.

Uma angustia muito forte acertou meu peito há poucas horas atrás e não quis manifestar e nem compartilhar com ninguém para não me tornar novamente o estraga prazeres das celebrações. É muito sufocante ter de rir pela obrigação de me mostrar feliz nestas ocasiões e mais sufocante ainda é não conseguir fingir que não vejo graça alguma nisso tudo e que muito deste clima que cerca estas datas já perdeu sentido faz tempo.

A obrigação da felicidade por si só já afasta sua possibilidade real. Sem espontaneidade essa felicidade que querem esfregar em nossas faces me soa covarde e cínica. Só não é mais triste porque acredito que muitas dessas pessoas que estampam palavras de amor e carinho munidos em seus sorrisos de satisfação o fazem com uma sinceridade quase inocente.

Veja bem, não gostaria de estar expressando uma visão tão rude em pleno dia primeiro de janeiro de 2010, mas infelizmente é como me sinto. Completamente fora do senso comum da Matrix e isso não me faz especial ou mais inteligente, esperto ou Sábio que os demais, muito pelo contrário, me faz um organismo incompleto e no que diz respeito a tudo que gostaria de oferecer aqueles que estão próximos de mim me sinto um incompetente.

Onde foi que isso começou a me contaminar?

Fico me questionando a respeito.

A perda daquela alegria que existia dentro de mim enquanto não enxergava o mundo dessa maneira tão crua, fodeu minhas relações familiares e pessoais.

Durante a “passagem” do ano, sentei na areia e fiquei olhando toda aquela gente soltando fogos, ensaiando rituais, mandingas, acendendo velas, pedindo para Deus, para os Santos, para o cosmos, prosperidade, sucesso, amor, saúde, dinheiro e tudo mais que se deseja num ato de esperança final quando se encerra um “ciclo” e começa outro. A esperança é o combustível deles e isso é totalmente legítimo, aceitável, importante para que possam continuar emprenhados em suas vidas cotidianas, muitas vezes sem muitos horizontes e repletas de dificuldades impostas pela rotina dura de trabalho, obrigações e tudo que já sabemos.

Me senti distante daquilo ali.

Não que não deseje também ou que não fomente alguma esperança no futuro. No entanto, essas manifestações perderam a graça. Talvez o leitor deva estar encarando meu depoimento como um tratado de “Rabugentisse”, contudo, longe disso. Estou apenas me questionando se tenho o direito de não compartilhar das mesmas necessidades e formas de expressá-las nesse exato instante.

Datas e celebrações como estas me frustram mais do que me dão alegrias.

Fico me sentindo como se fosse um robô com hora marcada para abraçar os próximos e desejar-lhes coisas que a meu ver poderiam e deveriam fazer parte de nossos comportamentos em qualquer outro dia dos que abrangem o ano. É assim no natal, nos aniversários e etc.

Às vezes sinto que só sou eu mesmo quando estou no palco. Que só me sinto liberto e feliz quando estou em ação, fazendo o que nasci para fazer e mesmo nestas horas, se me desconecto da energia maior, tudo perde o sentido.

Não sei se foram os livros, as idéias com as quais fiz contatos, as experiências que vivi. O fato é que não estou me comportando como esperam que me comporte e isso gera um sofrimento muito grande a quem compartilha da minha companhia diária.

Se pudesse ter escolhido a alegria do futebol, do carnaval, das festas de fim de ano, dos dias “especiais” e soubesse rir de mim mesmo com a mesma facilidade que questiono o que vejo, pode apostar que escolheria. É a tal da pílula vermelha né?

Não sei onde estava com a cabeça quando optei por viver essa loucura toda e hoje percebo porque muitos dos que escolheram este caminho ou se mataram ou ficaram Insanos.

Ainda tenho muitas alegrias, mas elas são poucas se comparadas com o que a maioria das pessoas consegue se alegrar.

Não me sinto mais livre, ao contrário, me sinto um escravo de meus pensamentos, de minhas próprias atitudes que soam egoístas, individualistas e arrogantes. Queria que fosse diferente. Sinceramente.

Queria conseguir resgatar a mente que trabalhava dentro de uma inocência bonita, sorridente, feliz. Mas ela ficou no meu passado.

Tenho medo que meus filhos se tornem monstros racionais como me tornei.

É apenas um desabafo, não se preocupem.

Ainda há tempo para resgates.


Algum dia posso ler isso aqui e rir de tudo se conseguir amadurecer e me tornar um ser humano menos irritante.

Que esse ano seja melhor do que o que passou e posso lhes dizer sou FELIZ de verdade com o que venho vivendo. Essas facetas são pequenas sujeiras que se formam entre os miolos do meu cérebro e que faço questão de expor ao julgamento alheio.

Um comentário:

Anônimo disse...

A cada texto vc muda mais. Os meses se passarão rápido e rapidamente vc mudou tb. Posso dizer que o seu ser hj está bem longe daquele que conheci, aquele que acreditava em tantas coisas lindas, que me fez acreditar que tudo podia ser possível. Que o amor, a união, a humildade podia vencer tudo. Lendo essa sua descrição da passagem de ano, fiquei mal. Ver isso assim, tão sem alegria, sem nehum agradecimento por mais um ano. Não que essa data seja importante pra mim (apenas visto uma roupa nova e tomo umas a mais), mas agora vejo que vc ridiculariza a vida, ao seu modo de pensar.
Aonde vc foi parar??
Queria encontrar aquele cara de novo!